Camelos vs Unicórnios: as startups irão sobreviver a crise?

Após fim da pandemia, tendência é investidores procurarem empresas que geram caixa próprio.

A busca pelos unicórnios acabou. As startups brasileiras foram as que mais receberam recursos em 2019, com US$ 2,49 bilhões em 222 investimentos, e tudo indicava que o crescimento das MPEs (Micro e Pequenas Empresas) continuaria durante 2020.

O impacto da COVID-19

Agora, com a crise do coronavírus levando a uma quebra no desenvolvimento econômico mundial, os investidores estão mudando estruturalmente seu modo de fazer negócios. Por conta do impacto da COVID-19, muitos investidores não querem tomar riscos e procuram por uma empresa que consegue sobreviver em períodos de estagnação.

Eles não buscam mais os potenciais “unicórnios”, nome criado para descrever uma startup que possui avaliação de preço de mercado em mais de 1 bilhão de dólares. É isso que afirma o especialista Edson Machado, sócio-diretor da EMF Consulting e professor do IBMEC, em entrevista para a Veja: “Os investidores estão procurando um novo bicho: o camelo, que anda grandes distâncias com pouca água e sobrevive 100 anos”.

Investimentos em startups

Investimentos

A maior investidora em startups do mundo, a Soft Bank, não vai sair ilesa da crise causada pelo Coronavírus. De acordo com análise da Reuters, o conglomerado japonês está com metade do capital do fundo em startups que estão sofrendo por conta da pandemia ou já estavam passando por dificuldades antes.

Até março, a empresa já sinalizou uma perda de US$ 17 bilhões em seu fundo. No Brasil, a MaxMilhas e a GymPass tiveram que demitir funcionários para se manter. A primeira, que trabalha com a intermediação de compra e venda de milhas em programas de empresas aéreas, teve que demitir 42% da sua equipe de 400 funcionários.

Já a GymPass não divulgou o número de demissões, mas afirmou que precisou demitir uma parcela de seus 1.100 funcionários para arcar com os custos. Tais dados evidenciam como o mercado do turismo e as academias sofrem imensamente com o isolamento social, e as startups, até unicórnios como a GymPass, podem ser ainda mais afetadas.

A Gupy, startup direcionada ao RH, é um ponto fora da curva e recebeu um investimento de R$ 40 milhões durante a pandemia. Além dos seus bons resultados em 2019 e seu crescimento de mais de 50% no primeiro trimestre deste ano, a Gupy faz sucesso por ter um algoritmo que garante o candidato ideal para cada empresa. Atualmente houve um aumento significativo no desemprego, mas também há uma necessidade de mais assistência em muitas empresas, o que torna seu destaque em meio às outras startups coerentes com o clima atual.

Assim como a Gupy, startups digitais têm mais facilidade em se manter em meio a crise. Essa é a realidade da Glebba Investimentos, plataforma de crowdfunding focada no setor imobiliário, que unifica o lado do investimento imobiliário com o dos investidores. “Nosso modelo de negócio é baseado no mundo digital, então não sofremos muito com o impacto do isolamento”, conta Francisco Perez, Head de Investimentos na Glebba, que afirma que a longo prazo essa realidade pode mudar. “Trabalhamos com investimento, então não sabemos como vai ser o comportamento do investidor daqui pra frente. Por enquanto, está tudo bem”.

Na Glebba, Perez acompanha o clima no mundo dos investimentos diariamente. Ele explica o porquê as unicórnios podem ser desfavorecidas após a crise passar: “[Os unicórnios] tinham como premissa crescer exponencialmente e não se preocupar muito com caixa.

Investimentos

Francisco Perez

Muitos investidores estão buscando empresas como as camelos, que conseguem gerar caixa e se manter. Elas serão mais procuradas, pois são mais resilientes às crises”. Para Perez, as startups são a solução para a vida pós-pandemia: “Elas trazem respostas que se encaixam perfeitamente nesse futuro, então acho que existe um cenário bem atrativo para as startups. Os investidores que têm mais apetite ao risco vão intensificar os investimentos depois do período crítico atual.”

 “A maioria dos fundadores e gestores das startups nunca tinham passado por uma crise. Tem pouco ‘cabelo branco’ nas startups, então para eles é tudo muito novo”, comenta Perez, que notou muitos empreendedores sem experiência de crise receosos com o que ia acontecer e tomando decisões que ele vê como ‘atrapalhadas’.

“A crise do coronavírus vai ser um momento de aprendizado único na vida dos novos empreendedores. Daqui um ano, eles vão ter passado por essa experiência única e vão estar muito mais fortes e seguros. Quem conseguir passar por essa fase inicial, vai sair do outro lado com um cenário extremamente positivo e favorável no quesito de investimentos”.